Ana Silva Angola, 1979

Apresentação

Quando criança, Ana Silva demonstrou um grande apetite pela criação. Isolada a vinte quilómetros da primeira aldeia, na quinta onde o seu pai cultivava café, costumava ler muito e construir aquilo a que chama “coisas estranhas”. Distorcia objetos. Tinha o hábito de cortar sapatos para fazer instalações nas paredes da casa da família, o que preocupava tanto o pai que o levou a um psicólogo. Este tranquilizou-os, confirmando que Ana Silva possuía simplesmente uma sensibilidade artística. Mais tarde, estudou na Escola Superior ArCo, em Lisboa. Pratica pintura, escultura e instalação artística.

 

A criatividade de Ana Silva expressa-se pela pluralidade dos seus materiais. Tela, madeira, metal, acrílico ou tecido são tanto os materiais que a rodeiam como as formas da sua arte. Durante os seus passeios pelos mercados de Luanda, distorce o uso primário de sacos de ráfia ou de outros bordados, transformando-os em trabalhos de memória. De objetos abandonados a objetos revividos: “Não consigo separar o meu trabalho da minha experiência em Angola, numa altura em que o acesso a materiais era difícil devido à guerra de independência e à guerra civil. A minha criatividade nasceu da exploração do meu ambiente imediato. Esta experiência teve um grande impacto na minha forma de trabalhar e, de forma mais geral, na minha vida.”

 

De todas as suas técnicas (pintura, desenho, colagem, oxidação de metal), retém a costura, associando rendas a tecidos africanos e cores vibrantes. Para Ana Silva, a arte é testemunho da sua cultura mista. A estética da artista conta uma história delicadamente sugerida por entre as rendas e redes onde se revelam figuras femininas.

 

O seu trabalho atual divide-se em três séries principais: Água, Criança e Avó. Na sua série mais importante, Água, a artista mostra o difícil acesso à água em Angola. Apesar da abundância deste recurso, a falta de infraestrutura obriga mulheres e crianças a percorrerem quilómetros diariamente para obtê-la: “Angola, país de água, onde a água corre por todo o território, excepto junto da população”.

 

A série Criança ilustra uma juventude privada da infância devido à necessidade de ir buscar água. A arte de Ana Silva é um testemunho da condição vivida pelas mulheres e crianças de Angola. Como expressa a série Avó, um dos temas recorrentes no trabalho da artista é a transmissão entre ela própria, a avó e a filha. A sua arte de bordados, preenchida por figuras femininas, contém conhecimento e cumplicidade.

 

Também escritora, Ana Silva acompanha as suas séries com poemas. Segundo a artista: “explicar demais é destruir”. A escrita confere sentido, ao mesmo tempo que contorna a realidade. As histórias que narra nos seus poemas ou contos curtos estão repletas de memórias do tempo em que deixou a quinta natal, ocupada pelos rebeldes durante trinta anos. A guerra tinha esvaziado a sua aldeia. Os seus textos são, mais uma vez, bordados, nos quais surgem rostos familiares e imagens marcantes: “Artes e escrita, para que o imaginário salve o real”.

Exposições