Arquiteturas do Invisível apresenta uma exposição individual do artista açoriano Gabriel Garcia, com curadoria de Cláudia Magalhães, reunindo 40 obras inéditas que exploram os territórios frágeis entre a realidade e a imaginação, a presença e a ausência. Apresentada no Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, de 12 de setembro a 1 de novembro de 2026, a exposição constitui um momento significativo no percurso do artista e marca, igualmente, o início da colaboração de Gabriel Garcia com a THIS IS NOT A WHITE CUBE.
-
-
"Entre o vísivel e o imaginado, existem estruturas que nos sustentam."
‘Arquiteturas do Invisível’ apresenta o mais recente capítulo da investigação pictórica de Gabriel Garcia, um artista que constrói uma linguagem profundamente enraizada na insularidade, na suspensão e na fragilidade da presença humana. Como o próprio afirma, “a definição de obra de arte é um processo” e é precisamente nesse processo, feito de silêncio, composição, gesto e matéria, que esta mostra se inscreve, trazendo a público 40 obras inéditas.
Partindo da paisagem atlântica como território emocional e simbólico, Gabriel Garcia cria imagens onde figuras anónimas habitam margens, plataformas frágeis, superfícies de água ou espaços despojados. São corpos que parecem existir num estado intermédio, num tempo suspenso entre o real e o simbólico. Não são retratos, mas presenças: arquétipos silenciosos de experiências universais de procura, introspeção e sobrevivência.
O elemento água assume, neste universo, uma presença recorrente. É superfície e profundidade, reflexo e movimento, estabilidade e instabilidade. Sobre ela flutuam corpos, objetos e pequenas arquiteturas precárias, enquanto as fronteiras entre realidade e imaginação parecem dissolver-se. A água torna-se, assim, território de passagem: um lugar onde o equilíbrio nunca é inteiramente garantido e onde as relações entre as figuras se tornam particularmente reveladoras.
Também os objetos quotidianos abandonam a sua função habitual. Espelhos, tábuas, escadas, pedras ou barcos transformam-se em extensões precárias do corpo. São tentativas de organizar aquilo que não pode ser inteiramente organizado, pequenas construções através das quais procuramos habitar a incerteza.
Os corpos assumem uma presença particular: expostos, vulneráveis ou simplesmente entregues à quietude, não procuram descrição anatómica nem erotismo. Habitam o espaço com naturalidade e, através do gesto mínimo, revelam uma condição humana feita de fragilidade, presença e silêncio.Há, nas imagens de Gabriel Garcia, qualquer coisa de teatral e cinematográfico. Cada pintura parece fixar um instante: um frame retirado de uma narrativa maior, cujo antes e depois permanecem fora de campo. As personagens parecem obedecer a regras que não conhecemos, envolvidas em ações cuja lógica permanece deliberadamente aberta. A Estação Ínsula – esse laboratório poético de isolamento e resistência – atravessa silenciosamente este universo. A ilha deixa de ser apenas território: torna-se condição, memória, espelho e lugar de transformação. Não é feita de pedra, mas de relações, memórias, ausências, desejos e vínculos invisíveis.
O vazio, tão presente na prática do artista, não é ausência. É espaço de possibilidade: o lugar onde a luz revela estados de consciência e onde o quotidiano se transforma em símbolo.
Gabriel Garcia pinta o instante em que uma história é interrompida. E passa o testemunho ao espectador. Cabe-nos imaginar o que aconteceu antes, o que poderá acontecer depois, aquilo que une ou separa as figuras, aquilo que se esconde por detrás do que vemos. É nesse intervalo entre presença e ausência, realidade e imaginação, que o invisível começa a tornar-se percetível. O artista constrói inúmeras narrativas neste percurso e através destas um lugar para habitarmos. Nesse lugar, a pintura devolve-nos a tarefa de continuar o processo.
Talvez seja essa a força silenciosa da insularidade: o território transformado em condição existencial. Como escreveu Vitorino Nemésio, “os nossos ossos mergulham no mar.”Cláudia Magalhães, Curadora
-
"Há, nas imagens de Gabriel Garcia, qualquer coisa de teatral e cinematográfico. Cada pintura parece fixar um instante: um frame retirado de uma narrativa maior, cujo antes e depois permanecem fora de campo. (...) Garcia pinta o instante em que uma história é interrompida. E passa o testemunho ao espectador. Cabe-nos imaginar o que aconteceu antes, o que poderá acontecer depois, aquilo que une ou separa as figuras, aquilo que se esconde por detrás do que vemos. É nesse intervalo entre presença e ausência, realidade e imaginação, que o invisível começa a tornar-se perceptível."
-
-
Gabriel GarciaO descanso do Sisifo, 2025Oil on paper70 x 100 cmView more details -
Gabriel GarciaPrometeu, 2025Oil on canvas100 x 140 cmView more details -
Gabriel GarciaO Parlamento Suspenso, 2025Oil on paper70 x 100 cmView more details -
Gabriel GarciaCegueira Voluntária, 2026Oil on paper70 x 100 cmView more details
-
Gabriel GarciaUntitled, 2026Oil on canvas60 x 50 cmView more details -
Gabriel GarciaA medida do passo, 2026Oil on paper70 x 100 cmView more details -
Gabriel GarciaMargens Curtas, 2026Oil on canvas89 x 116 cmView more details -
Gabriel GarciaEnsaios de Travessia, 2026Oil on canvas90 x 90 cmView more details
-
Gabriel GarciaA distância das coisas, 2026Oil on canvas50 x 70 cmView more details -
Gabriel GarciaWhat a surprise, 2025Oil on paper70 x 100 cmView more details -
Gabriel GarciaResistir sem apoio, 2026Oil on canvas80 x 120 cmView more details -
Gabriel GarciaOndas Cansadas, 2025Oil on paper70 x 100 cmView more details
-
-
-
-
-
sobre a galeria
THIS IS NOT A WHITE CUBE é uma galeria internacional de arte contemporânea, fundada em Luanda em 2016 e atualmente sediada em Lisboa, Portugal. Através da representação e colaboração com artistas nacionais e internacionais, tanto emergentes como consagrados, a galeria apresenta uma programação centrada em narrativas e debates relevantes associados ao contexto europeu e ao Sul Global. Com um espírito pioneiro de descompartimentação e inclusão, privilegiando diálogos interculturais, foi a primeira galeria africana em Portugal a abrir o seu círculo colaborativo tanto a artistas locais como a produções artísticas oriundas do Sul Global, incluindo o Brasil e países africanos não lusófonos. A galeria mantém uma presença regular e significativa nas principais feiras internacionais de arte contemporânea.

