Introdução às Novas Integrações através da Estética da Desacelaração: SPOTLIGHT 2

  • A estética da desacelaração

    Numa condição contemporânea definida pela aceleração, pela imediaticidade e pela constante saturação visual, a prática artística emerge cada vez mais como um espaço de resistência. O ato de resistir à aceleração, ou de conceptualizar uma estética da desaceleração, delimita um território em que o tempo não é comprimido, mas expandido, e onde a perceção é recuperada como um gesto mais lento e atento. Neste contexto, Alex Kuznetsov, Amélie Ducommun, Daniela Ribeiro, Expanded Eye e Pedro Besugo trabalham a lentidão não como um recuo, mas como uma metodologia, não como uma fuga, mas como uma forma de pensar através da matéria, da imagem e da forma, resistindo às exigências da legibilidade instantânea.

     

    Através de práticas diversas, esta resistência ganha forma através de processos de construção, repetição e reflexão. Neste espaço, o gesto torna-se um registo do tempo. Seja através de pinturas em camadas, de assemblagens táteis e escultóricas, da abstração narrativa ou de abordagens críticas aos imaginários tecnológicos e sociais, estes artistas privilegiam o processo em detrimento da imediaticidade e a atenção em vez da gratificação instantânea. As suas obras não se resolvem rapidamente, pelo contrário, desdobram-se, convidando a uma observação prolongada e a um envolvimento mais profundo.

     

    Este Spotlight reúne cinco artistas, recém integrados na seleção da THIS IS NOT A WHITE CUBE, cujas obras articulam diferentes abordagens à ideia de desaceleração. Movendo-se entre a abstração, a memória, a investigação material e a narrativa conceptual, os seus trabalhos propõem uma sensibilidade partilhada em relação ao tempo, abrindo espaço para a contemplação e a presença. Convidamo-lo a dedicar tempo à descoberta destes artistas e das suas práticas, explorando as obras na nossa Viewing Room.

  • Expanded Eye

    Expanded Eye

    Expanded Eye

     Expanded Eye é um duo artístico multidisciplinar sediado em Lisboa, formado pelo casal britânico Jade Tomlinson e Kevin James, em Londres, em 2010. Ambos são licenciados com distinção (BA Hons) em Design Gráfico e Ilustração pela Norwich School of Art & Design (2007), formação que desenvolveu a sua sensibilidade ao detalhe, à cor e à composição, aliada a uma forte abordagem narrativa na criação de imagens. Através de uma sinergia natural de diálogo, energia e intuição partilhada, o duo iniciou um percurso colaborativo assente na autenticidade e no desejo de explorar as complexidades multifacetadas da existência e a liberdade em relação ao conhecido. A sua prática tem evoluído de forma fluida entre várias disciplinas, incluindo arte urbana, instalação site-specific, assemblagem em madeira recuperada e tatuagem, utilizando o corpo como uma tela viva.

     

    A colaboração continua a ser central na sua prática, permitindo que a sua iconografia inconfundível evolua para uma linguagem visual poética unificada por materiais orgânicos. A madeira recuperada, a assemblagem antiga, o barro e o corpo humano oferecem, cada um, constrangimentos e possibilidades únicas que informam e ampliam a sua direção criativa.

     

    O seu domínio de técnicas e materiais diversos permite a criação de composições intrincadas que habitam o espaço liminar entre a bidimensionalidade e a tridimensionalidade, o passado e o futuro, atraindo encomendas internacionais, instalações site-specific e colaborações com marcas globais, bem como destaque em publicações internacionais de arte e design.

    • Expanded Eye Lunar Light Mother, 2026 Glazed hand-cut tile in a wooden tray frame 57 x 24.5 x 6.5 cm
      Expanded Eye
      Lunar Light Mother, 2026
      Glazed hand-cut tile in a wooden tray frame
      57 x 24.5 x 6.5 cm
  • ALEX KUZNETSOV

    Belarus, b. 1978
    Alex Kuznetsov é um artista que vive e trabalha em Lisboa cuja obra utiliza a abstração como método de resistência...

    Alex Kuznetsov é um artista que vive e trabalha em Lisboa cuja obra utiliza a abstração como método de resistência — à velocidade, ao espetáculo e à legibilidade imediata da superfície. As suas composições surgem através de processos lentos e estratificados, onde gesto, duração e estrutura se tornam inseparáveis. Mais do que imagens, são condições: espaços onde a perceção se pode expandir e reajustar.

     

    Assente na repetição, no ritmo e na presença física, a prática de Kuznetsov é deliberadamente aberta em materiais e formas. Da pintura às obras objectuais, da linguagem à construção, desenvolve campos visuais que recusam a imediaticidade — convidando o observador não a interpretar, mas a permanecer.

     

    Numa cultura movida pela aceleração, a sua obra permanece imóvel — não como recuo, mas como proposta. Um tempo mais lento. Um olhar mais profundo.

    • Alex Kuznetsov Unit Seven Eight One, 2025 Acrylic on Canvas 160 x 130 cm
      Alex Kuznetsov
      Unit Seven Eight One, 2025
      Acrylic on Canvas
      160 x 130 cm
    • Alex Kuznetsov Treshold, 2025 Acrylic on Canvas 160 x 130 cm
      Alex Kuznetsov
      Treshold, 2025
      Acrylic on Canvas
      160 x 130 cm
    • Alex Kuznetsov Pressure, 2025 Acrylic on Canvas 160 x 130 cm
      Alex Kuznetsov
      Pressure, 2025
      Acrylic on Canvas
      160 x 130 cm
    • Alex Kuznetsov Density, 2025 Acrylic on Canvas 160 x 130 cm
      Alex Kuznetsov
      Density, 2025
      Acrylic on Canvas
      160 x 130 cm
    • Alex Kuznetsov Unit Seven Seven Nine, 2025 Acrylic on Canvas 130 x 130 cm
      Alex Kuznetsov
      Unit Seven Seven Nine, 2025
      Acrylic on Canvas
      130 x 130 cm
    • Alex Kuznetsov Form, 2025 Acrylic on Canvas 160 x 130 cm
      Alex Kuznetsov
      Form, 2025
      Acrylic on Canvas
      160 x 130 cm
    • Alex Kuznetsov Balance , 2025 Acrylic on Canvas 130 x 130 cm
      Alex Kuznetsov
      Balance , 2025
      Acrylic on Canvas
      130 x 130 cm
    • Alex Kuznetsov Presence, 2025 Acrylic on Canvas 180 x 150 cm
      Alex Kuznetsov
      Presence, 2025
      Acrylic on Canvas
      180 x 150 cm
  • PEDRO BESUGO

    Portugal, b. 1971
    Pedro Besugo, nascido em Setúbal, em 1971, vive e trabalha em Lisboa, Portugal. Desde muito cedo, Besugo conseguiu sempre conciliar...

    Todas estas viagens influenciam profundamente a sua prática artística. As suas pinturas, compostas por múltiplas camadas, são um registo justaposto de memórias de viagem, mapas, redes de linhas, coordenadas, marcos urbanos, arquitectura e espaços de trânsito. A sua técnica combina uma teia de desenho abstracto, pintura, colagem e tinta.

    • Pedro Besugo Arco Olímpico, 2024 Mixed media on plywood 29 x 29 x 4 cm
      Pedro Besugo
      Arco Olímpico, 2024
      Mixed media on plywood
      29 x 29 x 4 cm
    • Pedro Besugo Compasso Coríntio, 2024 Mixed media on plywood 28 x 33 x 3 cm
      Pedro Besugo
      Compasso Coríntio, 2024
      Mixed media on plywood
      28 x 33 x 3 cm
    • Pedro Besugo Hipótese de Hiparco, 2024 Mixed media on plywood 23 x 29,5 x 3,5 cm
      Pedro Besugo
      Hipótese de Hiparco, 2024
      Mixed media on plywood
      23 x 29,5 x 3,5 cm
    • Pedro Besugo Setor Délfico , 2024 Mixed media on plywood 28 x 33 x 3,5 cm
      Pedro Besugo
      Setor Délfico , 2024
      Mixed media on plywood
      28 x 33 x 3,5 cm
  • AMÉLIE DUCOMMUN

    France, b. 1983
    Amélie Ducommun é uma artista franco-suíça cuja prática se centra na memória, na paisagem e na ressonância emocional dos elementos...

    Amélie Ducommun é uma artista franco-suíça cuja prática se centra na memória, na paisagem e na ressonância emocional dos elementos naturais. A natureza tem estado no cerne da sua prática, moldando uma linguagem visual enraizada na memória, na perceção da paisagem e na interação entre forças elementares. A exploração contínua da “memória da água” é um tema que atravessa as séries subsequentes.

     

    O seu trabalho tem sido orientado pelo desejo de compreender a memória e de explorar a forma como as paisagens se inscrevem em nós. Cria “mapas de memória”: nebulosas de vestígios, sensações e emoções recolhidos nos lugares por onde passa. As suas pinturas e instalações não são ilustrações da realidade, mas acumulações de impressões recordadas, sobrepostas com transparência como os estratos da experiência.

     

    Num mundo dominado pela velocidade, pela clareza e pela opinião constante, Ducommun sente-se atraída pelas zonas cinzentas — esses espaços subtis e incertos onde a poesia ainda existe. Hoje, a memória coletiva parece frágil; aquilo que nos liga ao passado é cada vez mais efémero: uma fotografia, uma mensagem, um vídeo que não deixa espaço para a nuance nem para a discussão. O processo de Ducommun é uma oscilação entre o mundo exterior, que tem de permanecer novo, e o seu mundo interior, preenchido por memórias. A obra surge no encontro entre os dois. As suas pinturas procuram expressar essa interação. As linhas e as cores não entram em conflito, mas evoluem em harmonia; formam encontros equilibrados entre elementos essenciais tanto à vida como à memória.

    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #1, 2025 Mixed media on canvas 100 x 100 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #1, 2025
      Mixed media on canvas
      100 x 100 cm
    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #2, 2025 Mixed media on canvas 73 x 100 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #2, 2025
      Mixed media on canvas
      73 x 100 cm
    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #3, 2025 Mixed media on canvas 46 x 55 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #3, 2025
      Mixed media on canvas
      46 x 55 cm
    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #4, 2025 Mixed media on canvas 40 x 40 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #4, 2025
      Mixed media on canvas
      40 x 40 cm
    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #5, 2025 Mixed media on canvas 195 x 130 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #5, 2025
      Mixed media on canvas
      195 x 130 cm
    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #6, 2025 Mixed media on canvas 195 x 130 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #6, 2025
      Mixed media on canvas
      195 x 130 cm
    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #7, 2025 Mixed media on canvas 150 x 150 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #7, 2025
      Mixed media on canvas
      150 x 150 cm
    • Amélie Ducommun In a bar under the sea #8, 2025 Mixed media on canvas 97 x 130 cm
      Amélie Ducommun
      In a bar under the sea #8, 2025
      Mixed media on canvas
      97 x 130 cm
  • DANIELA RIBEIRO

    Angola, b. 1972
    Daniela Ribeiro é uma artista plástica luso-angolana que desenvolve uma linguagem visual que se insere no surrealismo científico. Mais do...

    Daniela Ribeiro é uma artista plástica luso-angolana que desenvolve uma linguagem visual que se insere no surrealismo científico. Mais do que uma proposta estética, trata-se de uma investigação conceptual que articula os avanços tecnológicos mais disruptivos da contemporaneidade com as cosmologias ancestrais africanas. 

     

    No centro da sua prática está uma questão essencial: de que modo as tecnologias emergentes — biotecnologia, biónica, inteligência artificial, física quântica — podem dialogar com saberes milenares e tradições epistemológicas africanas? Ao abordar temas como o transhumanismo, Ribeiro transcende a especulação futurista para examinar as implicações éticas, filosóficas e culturais dessas transformações. A sua dupla herança cultural não surge apenas como enquadramento identitário, mas como dispositivo crítico que orienta e complexifica o seu pensamento visual.

     

    Nas suas composições, símbolos ancestrais, grafismos rituais e referências cosmogónicas coexistem com algoritmos, próteses biónicas, estruturas moleculares e representações quânticas. Essa convergência não é meramente formal; constitui um gesto epistemológico que questiona hierarquias de conhecimento. Ao aproximar esses universos, a artista propõe que a compreensão holística da interconexão entre todos os seres — central em muitas tradições africanas — oferece ferramentas fundamentais para enfrentar os dilemas éticos do presente tecnológico.

     

    No campo da inteligência artificial, interroga não apenas o avanço das capacidades computacionais, mas a própria natureza da consciência e da subjetividade, convocando noções africanas de interdependência e comunidade. Ao explorar ressonâncias com a física quântica, evidencia paralelismos entre a não-linearidade científica e visões cosmológicas que concebem o tempo e a existência como redes dinâmicas de energia, memória e relação.

     

    A obra de Daniela Ribeiro afirma-se, assim, como uma contribuição singular para os debates contemporâneos sobre tecnologia e humanidade. O seu surrealismo científico emerge como uma prática crítica e descolonial do imaginário tecnológico, essencial num momento histórico em que a humanidade redefine os seus limites e reavalia, com urgência, o que significa continuar a ser humana.

     

    A série apresentada neste Spotlight, e que esteve representada no pavilhão de Angola na Expo Osaka 2025, explora a atenção, a repetição e a decifração como processos de construção da imagem. Recorrendo aos símbolos Sona dos povos Chokwe e Lunda,  a artista integra sistemas ancestrais de conhecimento, matemática e espiritualidade na sua obra.

    • Daniela Ribeiro Untitled #1, 2025 Acrylic on velvet 133 x 187 x 4 cm
      Daniela Ribeiro
      Untitled #1, 2025
      Acrylic on velvet
      133 x 187 x 4 cm
    • Daniela Ribeiro Untitled #2, 2025 Acrylic on velvet 133 x 187 x 4 cm
      Daniela Ribeiro
      Untitled #2, 2025
      Acrylic on velvet
      133 x 187 x 4 cm
    • Daniela Ribeiro Untitled #3, 2025 Acrylic on velvet 133 x 187 x 4 cm
      Daniela Ribeiro
      Untitled #3, 2025
      Acrylic on velvet
      133 x 187 x 4 cm
    • Daniela Ribeiro Untitled #4, 2025 Acrylic on velvet 133 x 187 x 4 cm
      Daniela Ribeiro
      Untitled #4, 2025
      Acrylic on velvet
      133 x 187 x 4 cm
    • Daniela Ribeiro Untitled #5, 2025 Acrylic on velvet 133 x 187 x 4 cm
      Daniela Ribeiro
      Untitled #5, 2025
      Acrylic on velvet
      133 x 187 x 4 cm
    • Daniela Ribeiro Untitled #6, 2025 Acrylic on velvet 133 x 187 x 4 cm
      Daniela Ribeiro
      Untitled #6, 2025
      Acrylic on velvet
      133 x 187 x 4 cm
    • Daniela Ribeiro Untitled #7, 2025 Acrylic on velvet 133 x 187 x 4 cm
      Daniela Ribeiro
      Untitled #7, 2025
      Acrylic on velvet
      133 x 187 x 4 cm
  • ABOUT THE GALLERY

    THIS IS NOT A WHITE CUBE is an international contemporary art gallery, founded in Luanda in 2016 and based in Lisbon, Portugal. Through the representation and collaboration with both national and international artists, whether established or emerging, the gallery presents a program focused on relevant narratives and debates, associated with the European context and the Global South. With a pioneering spirit of decompartmentalization and inclusion, favoring intercultural dialogues, it is the first African gallery in Portugal to open its collaborative circle to both local artists and artistic productions from the Global South, including Brazil and non-Lusophone African countries. The gallery maintains a regular and significant presence at major international art fairs.