BLOOM: The Act of Remembrance: SOLO SHOW BY DAGMAR VAN WEEGHEL

Apresentação

Dagmar van Weeghel apresenta, em estreia mundial, a sua mais recente série, BLOOM, na galeria THIS IS NOT A WHITE CUBE, em Lisboa, com inauguração marcada para o dia 12 de Fevereiro.

Trata-se de uma exposição profundamente poética que reivindica a presença histórica de mulheres africanas, através do recurso a técnicas fotográficas do século XIX, práticas botânicas e arquivos visuais votados ao esquecimento.

A série estabelece um diálogo entre retratos contemporâneos e cartes de visite oitocentistas, propondo uma reflexão subtil e matizada sobre a relação entre passado e presente.

Várias das obras fotográficas apresentadas foram intervencionadas manualmente com pigmentos naturais produzidos pela própria artista, a partir de flores silvestres por si forrageadas — uma prática que entrelaça ecologia, afectividade e um olhar crítico sobre a política da representação.

 

Após a sua apresentação em Lisboa, BLOOM seguirá para os Países Baixos, onde integrará a prestigiada secção "Past and Present" da UNSEEN PHOTO 2026, agora oficialmente parte integrante da Art Rotterdam. A artista será representada pela galeria THIS IS NOT A WHITE CUBE, no certame que decorrerá entre 26 e 29 de Março, no Rotterdam Ahoy.

 

BLOOM: O Acto de Rememoração
Texto Curatorial de Hedy Van Erp

BLOOM é um projeto desenvolvido ao longo de quatro anos pela artista neerlandesa Dagmar van Weeghel, realizado em colaboração com mulheres de ascendência africana residentes em diversos países europeus. O projeto aborda uma lacuna significativa no arquivo visual europeu do século XIX: entre a invenção da fotografia (c. 1839) e o ano de 1900, as imagens de pessoas racializadas — em particular cartes de visite de mulheres — são raras, anónimas ou inexistentes. Embora determinados marcos legais (como a abolição do comércio de escravos na Grã-Bretanha em 1807 e a emancipação em 1833, ou a manumissão nos Países Baixos em 1873) ajudem a contextualizar este apagamento, não justificam o facto de as narrativas históricas registadas privilegiarem a centralidade da identidade branca e silenciarem vidas plurais.

 

Cada retrato em BLOOM é concebido como uma co-autoria: as participantes contribuem com as suas histórias de vida, reflexões sobre migração, pertença e visibilidade, partilhando igualmente os proveitos do projeto. Dagmar Van Weeghel não fala por elas; a sua prática expõe os enquadramentos visuais que limitaram ou apagaram essas presenças e cria espaço para formas mais plenas de representação.

 

A obra recorre deliberadamente a instrumentos e técnicas do século XIX — incluindo uma câmara original de carte de visite de 1868, a coloração manual com pigmentos florais produzidos pela própria artista e a antotipia (impressões sem câmara obtidas pela exposição solar de papéis impregnados com pigmentos vegetais) — para interrogar a pretensa objetividade da fotografia. Longe de um exercício de mimetismo nostálgico, estes métodos evidenciam o carácter construído da imagem fotográfica e os seus enviesamentos históricos quanto às vidas consideradas dignas de preservação.

 

A história botânica assume simultaneamente uma função metafórica e material. Inspirado num manual francês de 1818, mais tarde republicado como The Victorian Language of Flowers, que catalogava cerca de 300 significados florais usados socialmente no século XIX, BLOOM envolve-se com a floriografia: uma linguagem popular, frequentemente secreta, através da qual se codificavam emoções e códigos sociais. Muitos desses significados florais estavam intrinsecamente ligados a conceções vitorianas pseudo‑científicas marcadas por género e raça.

 

Dagmar Van Weeghel utiliza pétalas recolhidas nos Países Baixos, França, Escócia e Inglaterra para produzir pigmentos naturais. As antotipias e os pigmentos florais traçam percursos de circulação vegetal associados ao comércio e ao império, estabelecendo paralelos entre a translocação botânica e os movimentos diaspóricos. Esta ligação material evidencia a forma como ideias de origem, utilidade e invasividade atravessam sistemas naturais e sociais. Foram igualmente produzidas impressões em platina‑paládio — o processo com maior durabilidade — com o intuito de garantir a permanência arquivística das obras.

 

A posição pessoal de Van Weeghel — enquanto mulher branca europeia e mãe de filhos de herança cultural mista — enquadra o projeto como um gesto de responsabilidade e de proximidade. BLOOM não procura reescrever o passado, mas antes alargar o enquadramento do arquivo: uma intervenção que valoriza a co‑autoria, restitui dignidade à presença e reivindica visibilidade a longo prazo. Ao promover o colapsar da distância histórica num exercício de confrontação contemporânea, o projeto entende a história da fotografia como um processo em curso e convoca reconhecimento, responsabilidade e cuidado relativamente às imagens que escolhemos legar.

Obras
Installation Views