AKAA Art & Design Fair 2026: "Bloom: The Act of Remembrance" é o projeto curatorial apresentado através do trabalho de Dagmar van Weeghel.

Apresentação
4 rue Eugène Spuller, 75003 Paris Booth D1 https://my.weezevent.com/akaa-also-know-as-africa-2026 23 de outubro de 2026: 12h00–20h00 24 de outubro de 2026: 12h00–20h00 25 de outubro de 2026: 12h00–18h00 https://akaafair.com/en/

Para a AKAA – Also Known As Africa Art & Design Fair, a galeria apresenta BLOOM: The Act of Remembrance, um projecto de quatro anos da artista neerlandesa Dagmar van Weeghel, desenvolvido em colaboração com mulheres de ascendência africana na Europa. Através da fotografia, da história botânica e de processos fotográficos históricos, o projecto interroga os mecanismos de representação e de apagamento presentes nos arquivos visuais europeus do século XIX. O texto curatorial que se segue aprofunda as metodologias, referências e questões que estruturam esta investigação.

 

"BLOOM é um projeto desenvolvido ao longo de quatro anos pela artista neerlandesa Dagmar van Weeghel, realizado em colaboração com mulheres de ascendência africana residentes em diversos países europeus. O projeto aborda uma lacuna significativa no arquivo visual europeu do século XIX: entre a invenção da fotografia (c. 1839) e o ano de 1900, as imagens de pessoas racializadas — em particular cartes de visite de mulheres — são raras, anónimas ou inexistentes. Embora determinados marcos legais (como a abolição do comércio de escravos na Grã-Bretanha em 1807 e a emancipação em 1833, ou a manumissão nos Países Baixos em 1873) ajudem a contextualizar este apagamento, não justificam o facto de as narrativas históricas registadas privilegiarem a centralidade da identidade branca e silenciarem vidas plurais.

 

Cada retrato em BLOOM é concebido como uma co-autoria: as participantes contribuem com as suas histórias de vida, reflexões sobre migração, pertença e visibilidade, partilhando igualmente os proveitos do projeto. Dagmar Van Weeghel não fala por elas; a sua prática expõe os enquadramentos visuais que limitaram ou apagaram essas presenças e cria espaço para formas mais plenas de representação.

 

A obra recorre deliberadamente a instrumentos e técnicas do século XIX — incluindo uma câmara original de carte de visite de 1868, a coloração manual com pigmentos florais produzidos pela própria artista e a antotipia (impressões sem câmara obtidas pela exposição solar de papéis impregnados com pigmentos vegetais) — para interrogar a pretensa objetividade da fotografia. Longe de um exercício de mimetismo nostálgico, estes métodos evidenciam o carácter construído da imagem fotográfica e os seus enviesamentos históricos quanto às vidas consideradas dignas de preservação.

 

A história botânica assume simultaneamente uma função metafórica e material. Inspirado num manual francês de 1818, mais tarde republicado como The Victorian Language of Flowers, que catalogava cerca de 300 significados florais usados socialmente no século XIX, BLOOM envolve-se com a floriografia: uma linguagem popular, frequentemente secreta, através da qual se codificavam emoções e códigos sociais. Muitos desses significados florais estavam intrinsecamente ligados a conceções vitorianas pseudo‑científicas marcadas por género e raça.

 

Dagmar Van Weeghel utiliza pétalas recolhidas nos Países Baixos, França, Escócia e Inglaterra para produzir pigmentos naturais. As antotipias e os pigmentos florais traçam percursos de circulação vegetal associados ao comércio e ao império, estabelecendo paralelos entre a translocação botânica e os movimentos diaspóricos. Esta ligação material evidencia a forma como ideias de origem, utilidade e invasividade atravessam sistemas naturais e sociais. Foram igualmente produzidas impressões em platina‑paládio — o processo com maior durabilidade — com o intuito de garantir a permanência arquivística das obras.

 

A posição pessoal de Van Weeghel — enquanto mulher branca europeia e mãe de filhos de herança cultural mista — enquadra o projeto como um gesto de responsabilidade e de proximidade. BLOOM não procura reescrever o passado, mas antes alargar o enquadramento do arquivo: uma intervenção que valoriza a co‑autoria, restitui dignidade à presença e reivindica visibilidade a longo prazo. Ao promover o colapsar da distância histórica num exercício de confrontação contemporânea, o projeto entende a história da fotografia como um processo em curso e convoca reconhecimento, responsabilidade e cuidado relativamente às imagens que escolhemos legar."

 

- Hedy van Erp, Curadora

Obras