-
-
“Beyond Boundaries - A Collective Odyssey” afirma-se como uma reflexão visual sobre os “interstícios” — espaços de sobreposição, deslocamento e encontro entre domínios culturais distintos. Esse lugar entre fronteiras onde se renegociam experiências coletivas de pertença, identidade e valor cultural.
Reunindo em dois núcleos - no Museu da Água e no Centro Cultural Cabo Verde - 26 artistas de múltiplas geografias africanas e da diáspora, a exposição não só celebra a pluralidade e a reinvenção, como se posiciona como um ato de insurgência estética — um gesto de resistência ativa às fronteiras herdadas, às narrativas dominantes e às categorias fixas da história da arte.
Neste território em constante transformação, a produção artística emerge como força crítica e como potência de reconfiguração dos horizontes sensíveis do mundo.
-
OBRAS SELECCIONADAS
-
Yuran Henrique, Untilted, 2024 -
Yuran HenriqueUntitled, 2024Mix media on paper140 x 99 cm -
Yuran Henrique, Untitled, 2024 -
Abraão Vicente, Idade em construção II, 2004-11
-
Osias AndréSensações , 2025Oil on canvas
202 x 163cm -
Rómulo Santa RitaCoríntios 6:9-10, Serie: Filhos de Canaã, 2023Mixed media on craft paper, metal foil, gold leaf and spray paint145 x 195 cm -
Rómulo Santa RitaHebreus 13:5, Serie: Filhos de Canaã, 2023Mixed media on craft paper, metal foil, gold leaf and spray paint160 x 95 cm -
Rómulo Santa RitaProvérbios 1:19, Serie: Filhos de Canaã, 2023Mixed media on craft paper, metal foil, gold leaf and spray paint150 x 80 cm
-
Ilídio Candja Candja, Untitled, 2022 -
Gonçalo MabundaO Anotador e o Labirinto, 2021Decommissioned weapons, metal and welding88 x 65 x 12 cm -
Francisco VidalUTOPIA MACHINE, COTTON FLOWERS, 2018Oil on Machetes182 x 152 cm -
Cássio MarkowskiEstrela, 2024Sculptural object made with graphite, vinyl paint, varnish, demolition wood and found objects87 cm x 25, 5 cm
-
Cássio MarkowskiLabalábá, 2024Graphite, vinyl paint, colored pencils, and gouache on linen180 x 150 cm -
Pedro PiresTwo #1, 2019Intervention on paper160x122cm -
Ibrahim Bemba KébéBlood Memory, 2025Mixed media / acrylic on burlap158 x 170 cm -
Nelo TeixeiraUntitled. Series: Fragmentos da Chicala, 2021Acrylic, found objects, and other mixed media on wood137 x 157,5 x 10 cm
-
Patrick BongoyPARODY 1, 2021Found inner rubber tubes250 x 300 x 10 cm -
Bev ButkowMoment of Memories, 2022Ribbon, plastic lawnmower cord, jewelry wire, dressmaking scraps, imitation pearls, string, wool, plastic beads, and galvanized wire137 x 88 cm -
René Tavares, Leve Leve, 2024 -
Eduardo Malé, Trono do Trolha, 2025
-
Eduardo Malé, Negroides Assimilados, 2025 -
Barbara WildenboerGrowth and Differentiation I , 2020Hand-cut paper sculpture103 x 103 x 6 cm -
Alida RodriguesPapaver rhoeas L., 2019Mixed media collage on found photograph16,5x11cm -
Alida RodriguesStrange and Beautiful Bloom series. Brassica oleacea var. capitata, 2020Mixed media collage on found photograph16 x 10,5 cm; 31,5 x 25,5 x 5 cm (framed)
-
Alida RodriguesStrange and Beautiful Bloom series. L. papaver spminiterum , 2020Mixed media collage on found photograph16,5 x 10,6 cm -
Alida RodriguesStrange and Beautiful Bloom series. Lepiota friesii., 2020Mixed media collage on found photograph16,6 x 10,9 cm -
Maya-Inès TouamCitron et plastique, 2020Fine Art print on Hahnemuhle paper64 x 80 cm -
Samuel NnoromBrook, 2023African Wax Print Fabric181 x 172 x 22cm
-
-
TEXTO CURATORIAL
It is in the emergence of the interstices — the overlap and displacement of domains of difference — that the intersubjective and collective experiences of nationness, community interest, or cultural value are negotiated.
— Homi K. Bhabha,
The Location of Culture.
No cerne de qualquer cartografia reside uma tensão latente: entre o traço que delimita e a matéria viva que insiste em transbordar. Beyond Boundaries. A Collective Odyssey ergue-se precisamente nesse terceiro espaço — simultaneamente físico e metafórico — qual território intersticial, onde a arte contemporânea africana se afirma como ato de insurgência estética, edificante da contra-narrativa visual face às fronteiras herdadas, e como potência de reconfiguração dos horizontes sensíveis do mundo.
Nesta exposição reúne-se uma constelação notável de artistas cujas práticas diversas e singulares testemunham a vitalidade, a complexidade e o vigor de um continente em permanente reinvenção de si. Disposta em dois núcleos — no Museu da Água - Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos e no Centro Cultural Cabo Verde — a mostra propõe uma travessia visual e sensorial que desafia a rigidez do pensamento hegemónico inveterado e evoca a memória como gesto insurgente.
Ao questionar de forma profunda o conceito de “fronteira” — seja esta territorial, identitária, disciplinar ou epistemológica — o gesto curatorial convoca um corpo de obras que desmontam as narrativas unívocas, desconstroem os mapas coloniais e devolvem centralidade à multiplicidade de vozes, histórias e formas que compõem o caleidoscópio da criação africana contemporânea.
Trata-se, pois, de uma odisseia coletiva, não apenas no sentido literal da travessia partilhada, mas enquanto transferência do centro — da norma para a periferia, do cânone para o gesto subversivo, da memória imposta para a reinvenção crítica do arquivo. Cada obra patente opera como um fragmento de um palimpsesto maior, onde a matéria têxtil, pictórica, audível e visual é convocada não apenas como suporte, mas como testemunho.
A exposição desenha-se, pois, em torno de três eixos curatoriais fundamentais: a materialidade como discurso, a figuração como resistência e a memória como gesto político.
A materialidade assume um papel central, que desafia os binarismos entre arte e artesanato, entre técnica e conceito, entre objeto e pensamento. A matéria transporta em si a violência da história e a possibilidade da reconfiguração. A reutilização e a reciclagem não são meramente processos técnicos, são antes estratégias de subversão simbólica e de emancipação estética e narrativa.
A figuração, por sua vez, emerge como gesto de restituição do corpo — não mais como objeto de exotização e fetichização, mas como sujeito pleno, inscrito na sua dignidade e complexidade. Assiste-se a uma reapropriação crítica da imagem, onde o corpo negro deixa de ser projeção do olhar colonial para se tornar protagonista de uma narrativa por contar — íntima, política, cultural, espiritual.
Por fim, a memória — não como passado cristalizado, mas como campo vivo de disputa e reinterpretação — percorre transversalmente toda a exposição. Através de uma reapropriação consciente de arquivos materiais e simbólicos, evoca-se a possibilidade de reinscrição de cosmologias silenciadas, não como gesto de nostalgia, mas como ato de reativação crítica. Os padrões têxteis tornam-se insígnias de pertença, a corporalidade inscreve-se como arquivo vivo, e a prática artística emerge como ferramenta de reinscrição histórica. Neste gesto, a produção artística contemporânea africana patente afirma-se como espaço de enunciação autónoma, de cura simbólica e de restituição epistemológica — reivindicando o direito a imaginar, narrar e representar um mundo por vir e um tempo por escrever.
TEXTO POR - Graça Rodrigues -
MUSEU DA ÁGUA
ARTISTAS INTEGRADOS -
Abraão Vicente (Cabo Verde)
Bev Butkow (África do Sul)
Cássio Markowski (Brasil / Nigéria)
Eduardo Malé (São Tomé e Príncipe)
Francisco Vidal (Angola/ Cabo Verde)
Gonçalo Mabunda (Moçambique)
Ibrahim Bemba Kébé (Mali)
Ilídio Candja Candja (Moçambique)
Nelo Teixeira (Angola)
Osías André (Moçambique)
Patrick Bongoy (R.D.C.)
Pedro Pires (Angola/ Portugal)
René Tavares (São Tomé e Príncipe)
Rómulo Santa Rita (Portugal / Angola)
Yuran Henrique (Cabo Verde)
-
CENTRO CULTURAL DE CABO VERDE
ARTISTAS INTEGRADOS -
Alida Rodrigues (Angola)
Amadeo Carvalho (Cabo Verde)
Ana Silva (Angola)
António Ole (Angola)
Barbara Wildenboer (África Do Sul)
Cristiano Mangovo (Angola)
Francisco Vidal (Angola/ Cabo Verde)
Manuela Jardim (Guiné Bissau)
Maya-Inès Touam (Algéria / França)
Osvaldo Ferreira (Angola)
René Tavares (São Tomé e Príncipe)
Samuel Nnorom (Nigéria)
Vivien Kohler (África do Sul)
-
ORGANIZAÇÃO DO PROJETO EXPOSITIVO
Galeria THIS IS NOT A WHITE CUBE - Entidade organizadora / Produtora
A THIS IS NOT A WHITE CUBE é uma galeria internacional de arte contemporânea, fundada em Luanda em 2016 e sediada em Lisboa, Portugal. Através da representação e colaboração com artistas nacionais e internacionais, estabelecidos e emergentes, a galeria apresenta um programa centrado em narrativas e debates relevantes, associados ao contexto europeu e do Sul Global. Com um espírito pioneiro de descompartimentalização e inclusão, favorecendo os diálogos interculturais, é a primeira galeria africana em Portugal a abrir o seu círculo de colaboração tanto a artistas locais como a produções artísticas do Sul Global, incluindo o Brasil e países africanos não lusófonos. A galeria mantém uma presença regular e significativa em importantes feiras internacionais de arte.
Centro Cultural de Cabo Verde - Entidade organizadora / Produtora / Anfitriã
O Centro Cultural Cabo Verde em Lisboa é um espaço com indiscutível relevância para a disseminação e promoção da cultura e história cabo-verdianas no território português. Situado na capital portuguesa, apresenta-se como um espaço multifacetado, oferecendo um vasto leque de actividades e eventos dirigidos tanto à comunidade cabo-verdiana como ao público em geral, englobando exposições de arte, concertos, palestras, workshops e outras iniciativas de âmbito cultural. A sua dinâmica programação cultural tem um impacto significativo na preservação da identidade cultural cabo-verdiana, constituindo, assim, um importante meio de promoção da diversidade cultural na cidade.
Museu da Água - Entidade organizadora / Anfitriã
O Museu da Água reúne e dinamiza um conjunto de monumentos e edifícios, edificado entre os séculos XVIII e XIX - o Aqueduto das Águas Livres e a Galeria subterrânea do Loreto, o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, o Reservatório da Patriarcal e a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos. Os cinco espaços musealizados representam um importante capítulo da história do abastecimento de água à cidade de Lisboa e integram o roteiro histórico, patrimonial, tecnológico e científico da Água. A exposição de longa duração do Museu da Água, instalada na Estação dos Barbadinhos, permite uma abordagem interdisciplinar à temática da água que cruza a história e a sustentabilidade e convida o visitante a explorar conteúdos como a presença da água no planeta Terra, a história do abastecimento de água a Lisboa, o ciclo hidrológico, o ciclo urbano da água, a poluição da água e a pegada hídrica.
-
SOBRE A GALERIA
IBRAHIM BEMBA KÉBÉ Solo Show - Até 1 de AgostoA THIS IS NOT A WHITE CUBE é uma galeria internacional de arte contemporânea, fundada em Luanda em 2016 e sediada em Lisboa, Portugal. Através da representação e colaboração com artistas nacionais e internacionais, estabelecidos e emergentes, a galeria apresenta um programa centrado em narrativas e debates relevantes, associados ao contexto europeu e do Sul Global. Com um espírito pioneiro de descompartimentalização e inclusão, favorecendo os diálogos interculturais, é a primeira galeria africana em Portugal a abrir o seu círculo de colaboração tanto a artistas locais como a produções artísticas do Sul Global, incluindo o Brasil e países africanos não lusófonos. A galeria mantém uma presença regular e significativa em importantes feiras internacionais de arte.
-
FICHA TÉCNICA
CURADORES
Graça Rodrigues
Sónia Ribeiro
Ricardo Barbosa Vicente
EQUIPA
Sónia Ribeiro | Director
Graça Rodrigues | Curator
Sofia Tudela | Assistant
Francisco Blanco | Designer
Para mais informações:
gallery@thisisnotawhitecube.com
HORÁRIOS
Centro Cultural Cabo Verde:
Terça a quinta-feira: 12:00 - 19:00 Sexta-feira e sábado: 13:00 - 20:00
Museu da Água (Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos):
Terça-feira a domingo, das 10h às 18:00h.
BEYOND BOUNDARIES - A Collective Odyssey: Exposição Coletiva
Anteriores viewing_room

