Daniela Ribeiro Angola, 1972
A artista plástica luso-angolana Daniela Ribeiro desenvolve uma linguagem visual que se insere no surrealismo científico. Mais do que uma proposta estética, trata-se de uma investigação conceptual que articula os avanços tecnológicos mais disruptivos da contemporaneidade com as cosmologias ancestrais africanas.
No centro da sua prática está uma questão essencial: de que modo as tecnologias emergentes — biotecnologia, biónica, inteligência artificial, física quântica — podem dialogar com saberes milenares e tradições epistemológicas africanas? Ao abordar temas como o transhumanismo, Ribeiro transcende a especulação futurista para examinar as implicações éticas, filosóficas e culturais dessas transformações. A sua dupla herança cultural não surge apenas como enquadramento identitário, mas como dispositivo crítico que orienta e complexifica o seu pensamento visual.
Nas suas composições, símbolos ancestrais, grafismos rituais e referências cosmogónicas coexistem com algoritmos, próteses biónicas, estruturas moleculares e representações quânticas. Essa convergência não é meramente formal; constitui um gesto epistemológico que questiona hierarquias de conhecimento. Ao aproximar esses universos, a artista propõe que a compreensão holística da interconexão entre todos os seres — central em muitas tradições africanas — oferece ferramentas fundamentais para enfrentar os dilemas éticos do presente tecnológico.
No campo da inteligência artificial, interroga não apenas o avanço das capacidades computacionais, mas a própria natureza da consciência e da subjetividade, convocando noções africanas de interdependência e comunidade. Ao explorar ressonâncias com a física quântica, evidencia paralelismos entre a não-linearidade científica e visões cosmológicas que concebem o tempo e a existência como redes dinâmicas de energia, memória e relação.
A obra de Daniela Ribeiro afirma-se, assim, como uma contribuição singular para os debates contemporâneos sobre tecnologia e humanidade. O seu surrealismo científico emerge como uma prática crítica e descolonial do imaginário tecnológico, essencial num momento histórico em que a humanidade redefine os seus limites e reavalia, com urgência, o que significa continuar a ser humana.

